
Kaýto: Relatos de uma pessoa indígena não-binária
Reflexões sobre arte, gênero, sexualidade e família em um podcast exclusivo da Rede
A rede conversou com Kaýto, indígena, artista visual, musical e uma pessoa não-binária, que não se identifica nem com o espectro masculino, quanto o feminino.
A binaridade vem sido fortemente discutida nos últimos meses, principalmente na internet. Um dos principais pontos dessa discussão é o uso do pronome e a possibilidade da existência de uma neutralidade dos mesmos. Enquanto na língua inglesa, por exemplo, é possível utilizar termos como “they” e “them” para se referir a pessoas cujo pronome é desconhecido, mas isso não é possível no português. Assuntos como esse, raça, gênero e questões familiares foram debatidos com Kaýto em nosso podcast “Rede & VC”, disponível no Spotify e em nosso site, escute aqui.
Já questões como carreira, arte e oportunidade de indígenas na arte foram discorridas em primeira pessoa nesta declaração:
“Eu sou assistente social de formação, me formei em 2017 mas eu sempre fui muito apegada à arte. Quando eu era criança meu pai comprou uma Olympus, aquelas camerazinhas digitais e me deu, do camelô mesmo. Ela ficou todo esse tempo guardada e lá para o último semestre do meu curso eu já estava fazendo algumas matérias do curso de arte. Foi aí que eu comecei a produzir mais, eu voltei para esse processo da infância de expressar o que eu fazia e o que eu pensava.
Aí eu voltei a trabalhar com autorretrato e fui cursar Artes na UFF (Universidade Federal Fluminense), do IAPS (Instituto de Arte de Comunicação Social). E foi um processo, foi um processo porque eu não podia mais apenas estudar, eu tinha que trabalhar, até mesmo como assistente social, eu não estava focada na arte, estava focada em trabalhar. Mas a arte meio que apareceu.
Comecei a trabalhar em uma orquestra aqui de Niterói, a Vibrart e estava tudo dando muito certo. Eu trabalhava no departamento de arte, a mexer com produção, edição, filmagem. Eu sempre fui muito ligada a música também, tenho três discos experimentais no YouTube e fiquei muito empolgada, porque eu estava vivendo a música e trabalhando com isso.
Kaýto — Lamento (2020)
Kaýto — Massemba (2020)
Kaýto — Abya Yala
Mas aí veio a pandemia.
Era uma orquestra, não tinha como. Eles tiveram que parar e foi um processo muito complicado. Não só a questão financeira mas também a saúde mental. Tem as questões de como o dinheiro garante a sua independência, de como o trabalho te molda.
No final de 2020 eu consegui outro trabalho para realizar filmagens de cirurgias odontológicas, o tratamento das imagens, a edição. Então hoje trabalho filmando cirurgia em consultório e está sendo super rentável.
Eu ainda sou um microempreendedor. Então continuo trabalhando com fotos, tem gente que pede para publicar o meu trabalho, então eu faço esses serviços como freelancer mesmo.